segunda-feira, 31 de julho de 2017

SELO: Abaixo o obscurantismo! Dizia Samora Machel - Por Raúl Barata

Por muitos anos condenei o primeiro presidente de Moçambique independente. Até hoje vivo com certo desgosto com relação as suas palavras que mudaram de certa forma a maneira de viver e de pensar de muitos moçambicanos. Condenei Samora Machel por nos retirar parte da nossa história e das nossas tradições étnicas e linguísticas. Samora Machel colocou nas cabeças dos nossos pais e avós que falar a língua local e viver a tradição nos pararia no tempo. Matar a tribo para construir a nação, dizia Samora.

Eu particularmente nasci e cresci numa família infestada com os princípios propalados por Samora, de que devia-se matar a tribo para construir a nação e para isso os hábitos e costumes, as nossas tradições, o dialecto deviam morrer. Em casa, o meu pai condenava a todos os que quisessem falar o Emakhua. Somente com pouco mais de 10 anos comecei a falar o macua e até hoje devo dizer que tenho algumas dificuldades em me comunicar. Pena de mim.

Foram os efeitos da história. Nada mais. Entendo que havia necessidade de agir naqueles moldes. No entanto, hoje, quando paro para reflectir sobre o pensamento de Samora Machel, a ideia de aniquilar o obscurantismo, o curandeirismo, a ignorância, tudo volta a fazer sentido. Houve na altura e ainda há razão nas suas declarações.

Quando Samora falava de matar a tribo para construir a nação não queria dizer que devíamos adoptar os hábitos e costumes do colono, do homem branco, não. Longe disto, Samora Machel pretendia combater as práticas obscuras que hoje nos ofuscam diante da luz e nos obrigam a cometer os actos mais sombrios e hediondos sobre outros seres humanos.

Samora queria trazer e colocar a razão nos moçambicanos. Hoje, quando olho para os casos de assassinatos de albinos e calvos na sociedade moçambicana lembro o quão proféticas eram as palavras de Machel. Abaixo ao obscurantismo, a ignorância, quer dizer combater a falta de luz, a falta de conhecimento, de educação de qualidade que é um dos maiores senão o maior problema que enferma esta nação.

Samora Machel queria incutir na sociedade moçambicana a ideia de que para ter os nossos problemas resolvidos não era necessário recorrer a violência, e, acima de tudo devíamos nos livrar do preconceito.

Que combatamos os assassinos de calvos e albinos através da educação, do conhecimento, da informação, da comunicação e do diálogo. Desta forma penso eu, mataremos as práticas obscuras que deixam vítimas mortais e famílias na desgraça.

Até quando protegeremos os albinos e calvos? Não para a eternidade, acredito eu. Portanto, urge pensar em meios racionais que desincentivem a perseguição e morte destes indivíduos que apenas sofrem de uma mutação biológica natural, normal e cientificamente comprovada, e um desses meios passa pela educação. Abaixo a ignorância.

Por Raúl Barata



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