terça-feira, 24 de julho de 2018

SELO: Uma orelha amiga: olá! - Por Enoque Basílio

Não havendo entre nós nenhuma outra relação que não seja de límpida e amorosa amizade, permita-me, tu, que, fazendo uso da mesma, eu fale-te coisas que de mim tão-pouco solicitaste ouvir. Se acaso eu falar desabridamente ou, então se alguma palavra menos comedida me fugir da língua, declaro desde já que a retiro, porquanto não há nas minhas palavras o menor intento ofensivo, mas clareza que me caracteriza, trazendo sempre à boca aquilo que me passa na mente.

Eu estou vivendo e colhendo, e espero que tu também, amiga, Cláudia Adamo, desse lado do hemisfério! Nesta missiva, lavrada com meu próprio punho e letra, sob sensação de despeito e vivo desgosto pela vida minha e pelo rumo que a nossa pátria tem tomado, consinta-me, pois, falar-te de mim mesmo, sem, com isso, deixar de domar os impulsos do amor-próprio.

Aqui é agora estou, e, como deves lembrar, tudo “chega-nos” em doses invulgares. Rajadas, chuvas fortes e vagas de calor que superam os anos anteriores. Estiagem, cheias e ajuda internacional que não chega aos necessitados. Embora sem vocação para tal e, entretanto, assumindo papel dum vate sem requinte gramatical e, principalmente métrico, versejo: subiu o termómetro do INAM – mumu / Subiu o excesso de águas em casa – pfùlàà / Subiram os números d’estradas em Maputo / e as mortes também / uh! asfalto rubro / Subiu preço do pão / e o débito então! Retornando a prosar: é nesta época em que se justifica silenciosamente a ostentação do “templo de Deus”, por parte das nossas irmãs, e, com tanto sangue na estrada assim, fica a impressão – e é só impressão! – da ausência da mão do Mesmo. Dizendo isto, sinto espremer-se-me o coração, porém devo acrescentar que alguns chamados “men of God” não se diferem tanto do nosso sistema: insensíveis, com corações obdurados, qual o de faraó.

Ora, eu não bebo do fino, mas te posso garantir que o estado da nação não é bom. Os dados de combate contra a “pobreza absoluta” que nos são apresentados pela média, são falsos. Que o país está em paz, é mentira. Como que quando estava de pé o Santo Ofício, aqui, há, também, prémio para a adulação, ódio e castigo para a verdade. Isso facto, há muitos, na pátria, em cárceres domiciliários, com mentes asfixiadas e emoções algemadas.

Os mais entendidos diriam que à sombra de um prejuízo repousa, às vezes, uma verdade útil. Muito útil. Vejamos. Escolhido por se comprometer em seguir os ideais dos seus antecessores, em vésperas das eleições, o nosso Presidente é, sem dúvidas, um pouco dos santos varões. E que coisa mais bela de se ver!

Amiga, nós, os jovens, temos um futuro incerto, na pátria-amada. Aqui, por exemplo, sonha-se jornalista e pode-se, sim, acordar entre cimento, pedra e pá nas mãos. Contudo, nunca deixei de sonhar, conquanto seja cada vez mais caro realizar. Quanto aos corsários da palavra de Deus a que me refiro – vale lembrar as palavras de S. Bernardo, que se preservam tão actuais e tão contundentes como no tempo em que foram escritas, para qualificar a corrupção, em geral, do sacerdócio: “manou a iniquidade dos anciãos, dos juízes, dos teus vigários, oh Deus; daqueles que parecem governar o teu povo! Já não é lícito dizer – tal o povo, tal o sacerdócio; porque este é pior. Oh meu Deus, meu Deus! Os teus maiores perseguidores são os que mais ambicionam a primazia, e exercem na igreja o mando superior.” O pior ainda é que o rebanho é ensinado a não questionar, a engolir tudo em seco.

Diria, acertadamente, o psiquiatra e escritor brasileiro Augusto Cury que quando a fé inicia, a ciência se cala. “A fé – acrescenta – transcende a lógica, é uma convicção em que a dúvida está ausente”. Não obstante, conferir o que o Padre, o Pastor, ou seja lá que título tenha o que esteja falando em nome de Deus, conferir, repito, o que este diz ao que está nas Escrituras, não é um acto herético, é uma questão de nobreza e vigilância. Os bereanos assim procederam perante o apóstolo tardio do nazareno, seguidamente à sua pregação. Porém, cá entre nós, amiga, intolerantes, os tais dogmatizam suas concepções e interpretações bíblicas. E já agora, não pretendo aqui discorrer sobre religião, que dirá sobre política.

Pratique a paciência, apure os teus ouvidos e sofra-me, tu, falar-te, nesta carta, tudo que posso, exceptis excipiendis. Tenho tido pouca oportunidade de o fazer. O meu silêncio tem dia pois dia ganhado proporções alarmantes. Será que a ti incomoda? A mim, incomoda bastante. Alguns admiram-no. Acham ele normal, sedutor. Pois te digo: na verdade, esta não é a “oração dos sábios” – como se pode pretender. Este silêncio estilhaça-me. Embota-me o raciocínio, subtrai-me requintes de lucidez e faz-me perder a sensibilidade. Sinto que vou morrendo um bocadinho a cada dia que passa. Uma morte lenta, mas progressiva, acossa-me. Afinal de contas não somos seres sociais pelo instinto que promove a sobrevivência biológica, como acontece com os animais, mas por sobrevivência psíquica – diz aquele psiquiatra. E ninguém nunca me perguntou por que “sou” assim – inclusive tu, amiga. Sem embargo, estou persuadido de que o silêncio não é sinónimo de humildade. Por isso procuro sempre falar quando necessário e fazer silêncio quando preciso. Às vezes não consigo, então sinto que sou flácido de espírito, pois, mais elucidativo e didáctico foi um professor meu ao afirmar que, “duas coisas são sinónimas de fraqueza: calar quando convém falar e falar quando convém calar”.

Estás longe de casa, sei, e sei igualmente que não sabes na prática o que é acordar ao lado de um homem todos os dias, mas, por favor, amiga, tu és mulher, então seja sincera comigo! Qual é a avaliação que fazes das convivências entre as noras e suas sogras? e entre as esposas e os seus maridos? Eu, como tu, sou um rapaz solteiro, mas quero dividir contigo algumas coisas da vida a dois que os meus olhos e ouvidos testemunharam e têm testemunhado no grémio dos meus irmãos, amigos, vizinhos, enfim, de todos que me circundam.

Decerto que te não trago aqui nenhuma novidade, mas como amigo que sou, agradar-me-ia saber que ainda existem mulheres com eme grande nesta terra, e uma delas és tu. Amiga, salvo a minha idade que não dita o meu nível de observação, e generalizando, nas relações actuais não há diálogo, a transparência, a amizade, para que, nitidamente, se saiba com quem se está a dividir a vida. Já reparaste nisso? Pela ausência desses componentes juntos, tenho eu contemplado casamentos precoce e irracionalmente frustrados por e para ambos. E daí resultam pancadas, óleos e petróleos [note-se o engenho]. Casar não rima com amar – como parece. E imaturos, nós ambicionamos a vida a dois. Na verdade, ambicionamos é o sexo mais do que a relação em si. Todavia, ter uma companheira/o não é fundamentalmente ter “sexo” por perto, é ter com quem conversar, desabafar e partilhar sonhos…

Quanto às relações entre noras e sogras, só de pensar ganho repulsão de casamento e começa a destilar peçonha entre os meus lábios. Assim, ninguém volve os olhos para o passado com tamanha nostalgia que eu. Quer que te diga tudo? A minha dilectíssima Ivânia Mudanisse, mais do que ninguém, descreveu melhor a cena, a triste cena, que se vive nos lares, em “Lágrimas de Mãe”, um relato melódico, cheio de significado. Escute.

Ah, por falar nisso, reparto contigo, a seguir, um pouco do quadro de vida que arquitectei para mim. Atónito pelas vicissitudes da vida, eu, Enoque Basílio de carne, sangue e lágrimas, prometi para mim mesmo, pelo cálice e a hóstia, que não quero [entenda-se na radical energia das palavras] e não vou dançar conforme a música, a música de qualquer que seja a mulher, nem hoje, nem amanhã. Resultado: isso está-me custando nomes. Alguns menos interessantes que os outros…

Filha de Adamo, sendo-me lícito perguntar-te sempre que duvidar, ouvi por aí que o autor do “Tratado dos Prazeres” conclui, peremptoriamente, que “homens são essências para procriação, mas quando o assunto é prazer são desnecessários”, que me dizes sobre o assunto? Peço a tua sinceridade. Desculpe-me pela petulância, mas confesso minha ignorância – eis que aqui reside a minha absoluta insciência. Admito que não tenho audácia suficiente para perguntar isso a minha mãe, como não a tive antes para te perguntar se tens, já, uma vida sexual activa. Contudo, ei-la, a questão, a dupla questão.

Não se preocupe, vou cerrar a minha fala quando menos esperares. Receio ir mais longe do que deveria. Receio transpor os muros da nossa senecta amizade.

Estamos queimando os últimos cartuchos do ano. A bem dizer: já estamos a inalar o ano seguinte. Como avalias este ano? O meu foi algo positivo. Não alcancei na plenitude o que havia idealizado. O que me orgulha é que nunca deixei de tentar. Nem sempre consigo o que desejo, mas sempre tento. Por isso, exalto o que tenho: “o orgulho de ter tentado”; e não reclamo do que não tenho: “o que não consegui, tentando”.

Quando me vens visitar? Eu estou com saudades tuas. De falar contigo o meu pobre francês. Enquanto não chegas, receba, do teu amiguinho, votos de uma feliz e inesquecível quadra festiva. Continue sendo essa jovem que eu conheço: estudiosa, determinada e com uma pertinácia mais do que feminina. Esteja sempre de prevenção – estamos no mundo; nele ninguém é perfeito, mas nunca deixe de tentar.

Chegados até aqui, sinto-me comovido pela nímia gentileza e resignação com que me escutaste. Imaginando a tua intensa ocupação, não encontro palavras para te agradecer pela atenção prestada. Merci beaucoup!

Por Enoque Basílio



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